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Altíssima importação de lácteos do Mercosul é o principal fator da crise; safra de verão, consumo enfraquecido e custos elevados agravam o cenário:
O setor leiteiro brasileiro iniciou 2026 sob forte pressão, após um 2025 marcado por sucessivas crises, queda prolongada nos preços pagos ao produtor e avanço do endividamento no campo. O principal fator que explica o atual cenário é a altíssima importação de leite e derivados do Mercosul, que tem provocado forte desequilíbrio no mercado interno. A esse fator somam-se a safra de verão, o consumo enfraquecido e os elevados custos de produção, ampliando a crise enfrentada pelos produtores.
A entrada expressiva de produtos lácteos importados, especialmente de países vizinhos, ocorre a preços significativamente mais baixos do que os praticados no mercado nacional. Essa concorrência desleal tem pressionado diretamente os valores pagos ao produtor brasileiro, reduzindo margens e comprometendo a sustentabilidade da atividade em praticamente todas as regiões do país.
Segundo a diretora de Marketing da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Maria Antonieta Guazelli, a crise é resultado direto, principalmente, do volume elevado de importações. “A crise ocorre por conta da alta importação de produtos lácteos do Mercosul, que entram a preços muito mais competitivos e pressionam fortemente os valores pagos ao produtor. A alta produção interna acaba agravando esse cenário, mas o principal fator é a importação”, afirmou.
De acordo com a Abraleite, o impacto é ainda mais severo por coincidir com o período de safra. O verão é historicamente a época de maior produção de leite no Brasil, o que amplia a oferta justamente em um momento em que o mercado já está pressionado pela entrada de produtos importados. A avaliação do setor é de que 2026 será um ano ainda mais difícil na questão do preço do leite, com margens extremamente apertadas, inclusive piores do que as registradas no final de 2025.
A crise atinge toda a cadeia porque a produção de leite no Brasil é altamente distribuída e heterogênea, envolvendo desde pequenos até grandes produtores. A atividade está presente em cerca de 98% dos municípios brasileiros, o que evidencia seu papel estratégico não apenas na produção de alimentos, mas também na geração de empregos e renda no meio rural. Para se ter dimensão dessa pulverização, os 100 maiores produtores de leite do país, somados, não chegam a representar 10% da produção nacional.
“O impacto social é violentíssimo quando se permite a entrada de leite importado a valores muito baixos, principalmente para os pequenos produtores”, alertam representantes do setor. Com a rentabilidade comprometida, cresce o número de produtores em situação financeira delicada, com relatos de redução de investimentos, descarte de animais e até abandono da atividade em diversas regiões do país.
Além da pressão das importações, os custos de produção seguem elevados. Insumos como ração, milho, energia elétrica, combustível e logística continuam pesando no orçamento das propriedades. Em muitos casos, o valor recebido pelo litro de leite não cobre integralmente os custos operacionais, tornando a atividade economicamente inviável.
No mercado atacadista, a pressão também se reflete nos derivados. Produtos como leite UHT, queijo muçarela e leite em pó enfrentam dificuldades de escoamento, estoques elevados e limitação de capacidade de armazenamento. O leite UHT, conhecido como leite de caixinha, tem validade média de seis meses, enquanto o leite em pó pode ser estocado por um período maior, mas ambos dependem de uma logística eficiente, que hoje encontra gargalos.
A baixa renda das famílias brasileiras agrava o problema. Com poder de compra reduzido, o consumo de leite e derivados fica comprometido. Forma-se, assim, um paradoxo: o produtor recebe preços baixos, enquanto o consumidor final enfrenta valores elevados, em um contexto de renda limitada. Sem consumo suficiente, a indústria reduz compras, ampliando a pressão sobre o produtor.
No cenário internacional, a concorrência é intensificada por fatores estruturais. A Argentina conta com subsídios relevantes à produção de leite, o que reduz artificialmente os custos e torna o produto mais barato no mercado brasileiro. Já o Uruguai se destaca como grande produtor e exportador de leite em pó, com escala elevada, o que favorece custos mais baixos e amplia a competitividade externa.
Diante desse quadro, entidades representativas cobram ações mais efetivas do governo federal. A Abraleite defende medidas antidumping para comprovar a concorrência desleal. O processo, iniciado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), chegou a ficar paralisado, mas foi retomado recentemente. Apesar de essencial, trata-se de uma ação de longo prazo.
Enquanto isso, o setor pede medidas paliativas emergenciais, como a contenção temporária das importações, articuladas entre a CNA, lideranças políticas e entidades do agronegócio. Segundo a avaliação do setor, essas ações podem dar fôlego ao setor leiteiro para atravessar o período mais crítico da safra, que deve se estender até abril e maio, quando a produção brasileira tende a cair e o mercado pode iniciar um processo de reequilíbrio.
Em Santa Catarina, uma iniciativa estadual busca mitigar parte dos impactos da crise. O governador Jorginho Mello sancionou a lei de autoria do deputado estadual Oscar Gutz (PL) que proíbe a reconstituição e a comercialização de leite em pó importado como leite fluido no estado. A legislação impede que indústrias e laticínios utilizem leite em pó estrangeiro, reconstituído com água, para venda como leite líquido em território catarinense.
A prática vinha sendo duramente criticada pelos produtores, que apontavam concorrência desleal. Segundo o deputado Oscar Gutz, a sanção da lei representa um marco na defesa do agronegócio catarinense. “Essa lei protege quem trabalha de verdade e enfrenta a concorrência injusta. É uma resposta clara do Estado em defesa do produtor de leite de Santa Catarina”, destacou.
A fiscalização ficará a cargo de órgãos estaduais, como a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), e prevê penalidades como apreensão de produtos, multas e até suspensão da inscrição estadual em casos de reincidência.
Apesar da importância da medida catarinense, especialistas reforçam que soluções duradouras exigem coordenação nacional. Para o setor, a crise do leite já ultrapassa o aspecto econômico e assume contornos sociais, afetando o emprego rural, a sucessão familiar e a permanência das famílias no campo.
“O leite é um alimento essencial para a saúde da população. Garantir condições de consumo deveria ser uma política estratégica do Estado”, reforçam representantes da cadeia produtiva.
Enquanto isso, o setor leiteiro segue atento ao comportamento das importações, da produção e do consumo. Esses fatores serão decisivos para determinar se o atual ciclo de desvalorização dará lugar a uma recuperação mais equilibrada ao longo de 2026 ou se a crise continuará impondo desafios ainda maiores ao campo brasileiro.
Por: Carlos César / Super News.