MENU



Governo brasileiro condena intervenção, senadores divergem e especialistas veem riscos à soberania regional
A prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos no último sábado (3), elevou a tensão geopolítica na América Latina e provocou fortes reações no Brasil, tanto no governo federal quanto no Congresso Nacional.
A ação, realizada em Caracas, resultou no envio de Maduro aos Estados Unidos, onde ele deverá responder a acusações de narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e posse de armas de uso restrito, conforme informou a procuradoria-geral norte-americana. Após a operação, a vice-presidente Delcy Rodríguez foi declarada presidente interina da Venezuela.
Em manifestação nas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou os bombardeios e a captura de Maduro como uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela” e alertou para um “precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
O governo brasileiro reiterou essa posição em reuniões da ONU e da OEA, condenando oficialmente a intervenção americana e defendendo o respeito ao direito internacional, mesmo sem reconhecer a legitimidade das eleições venezuelanas de 2024.
Segundo o Itamaraty, a ação dos EUA pressiona a diplomacia brasileira em um momento de recomposição da relação bilateral com Washington e enfraquece o papel do Brasil como mediador regional.
A operação militar também repercutiu entre os senadores brasileiros. Parlamentares alinhados ao governo criticaram duramente a intervenção, apontando violação da soberania venezuelana e risco de normalização de ações militares unilaterais na América Latina.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou que o foco da operação seria o controle do petróleo venezuelano. Já Humberto Costa (PT-PE) e Renan Calheiros (MDB-AL) destacaram que o episódio ameaça a paz mundial e rompe com normas básicas do direito internacional.
Por outro lado, senadores da oposição comemoraram a prisão de Maduro e defenderam que o Brasil reconheça formalmente o regime venezuelano como uma ditadura. Para parlamentares como Rogério Marinho (PL-RN) e Mecias de Jesus (Republicanos-RR), a ação dos EUA representa um passo em direção à reconstrução democrática do país vizinho.
Há ainda posições intermediárias. O senador Eduardo Braga (MDB-AM) avaliou que não há vencedores no episódio, enquanto Otto Alencar (PSD-BA) classificou a situação como um confronto entre dois erros: a ditadura venezuelana e a intervenção americana.
Em entrevista à BBC News Brasil, o historiador Erick Langer, professor da Universidade de Georgetown, afirmou que a ação dos Estados Unidos tem forte motivação econômica, especialmente ligada ao petróleo venezuelano.
Segundo Langer, o objetivo do governo Trump seria transformar a Venezuela em uma espécie de “colônia econômica”, mantendo o chavismo no poder sob nova liderança, desde que alinhada aos interesses norte-americanos. Ele também avalia que integrantes da cúpula chavista teriam apoiado a queda de Maduro em troca da permanência no poder.
O especialista alertou ainda que os EUA tendem a ampliar sua influência na América Latina, pressionando países como México e Cuba, e que podem tentar interferir no processo eleitoral brasileiro. No entanto, avalia que esse movimento pode acabar fortalecendo o discurso nacionalista no Brasil.
Analistas apontam que a intervenção americana enfraquece organismos multilaterais como a ONU, a OEA e o Mercosul, além de isolar politicamente o Brasil em um cenário regional cada vez mais polarizado.
Com fronteira direta com a Venezuela, o Brasil acompanha com atenção os desdobramentos da crise, especialmente em relação à segurança, ao fluxo migratório e à estabilidade política da América do Sul. A Comissão de Relações Exteriores do Senado informou que segue monitorando a situação e não descarta reuniões extraordinárias para avaliar os impactos de curto, médio e longo prazo.
Enquanto o futuro político da Venezuela permanece incerto, o episódio reacende o debate sobre soberania, democracia e limites da atuação de grandes potências na América Latina.
